Era o começo do século XX, se abria o debate cultural sobre o uso do corset e sua influência negativa na saúde das mulheres. Eram dias em que Isadora Duncan dançava descalça com uma túnica branca e Europa atravessava uma profunda revolução cultural que daria origem a um novo modelo de vida. Este era o mundo de Vionnet, e este ano vamos ouvir falar muito dela. Primeiro pela reabertura da maison, segundo pela mega exposição que Musée da Mode et du Textiles, fará como uma retrospectiva sobre seu trabalho: Madeleine Vionnet, puriste de la mode. Uma coleção composta por 122 vestidos, 750 desenhos e 75 álbuns de imagens que foram doadas pela estilista na década de 50. Mas você sabe porque ela é tão importante na história da moda?
Em 1912 Madeleine Vionnet abre seu primeiro atelier, que fecha por causa da guerra, para retornar em 1918.
Da mesma forma que Chanel, Vionnet buscava um novo modelo para a mulher moderna; enquanto Coco se inspira no traje masculino, Vionnet decide voltar às origens, à túnica clássica. Para isso, cria peças fluidas, drapeadas e que não impunham uma forma ao corpo, e sim seguiam naturalmente a própria forma deste, Madeleine Vionnet cria algo tão simples (agora) como colocar o tecido ao cortar com um ângulo de 45º;assim inventa o corte ao viés. Técnica que até então só era utilizada em golas, nunca em um vestido inteiro.
O resultado é um vestido leve, etéreo, delicado, que lembra à túnica romana. No entanto, mesmo que aparentemente fosse algo simples que lembrava ao mundo clássico, a estrutura interna era baseada em complicados estudos geométricos.
A partir deste momento, começa um novo capítulo na carreira de Vionnet que se centra no uso do corte ao viés e em como se comportam os diferentes materiais ao colocá-los em posição obliqua (nem todos os tecidos caem e cedem igual) Em cada uma de suas coleções se escolhe um modelo geométrico sobre o qual se experimenta: o quadrado, o retângulo, o triângulo ou a espiral logarítmica com a qual criou suas famosas rosas de tecido.Vionnet não fazia esboço de seus desenhos, improvisava sobre um manequim sobre uma banqueta de piano, como se modelasse barro, ia modelando formas, volumes e linhas.
Madeleine foi uma visionária e sempre lembrou de sua origem humilde. Teve que deixar a escola aos 12 anos, aprendeu corte e confecção trabalhou como costureira durante muitos anos antes de trabalhar em reputadas casa de moda das Soeurs Callot e Doucet.
Por isso quando mudou seu atelier a uma nova sede em Av. Montaigne onde sobretudo pensou nas condições de trabalho das costureiras (Vionnet não tinha esquecido sua própria experiência e as duras condições às que se tinha enfrentado quando era jovem) No edifício havia uma enfermaria, cafeteria, creche para os filhos das trabalhadoras, dentista… Além disso concede licenças-maternidade e férias remuneradas, uma verdadeira empresária a frente de seu tempo, já que em 1922 não eram obrigatórios esse direitos que são tão básicos para nós.

No mesmo ano propõe outra grande inovação: o copyright para proteger os modelos de Alta Costura. Suas criações levavam uma etiqueta com sua assinatura e sua digital. Ela fotografava todas suas roupas na frente de dois espelhos junto à um número de série, ou em três ângulos diferentes, assim tinha álbuns organizadíssimos com todas as suas criações.
Depois do craque de Wall Street e a crise econômica sucessiva, a moda se volta mais ostentosa e procura seus modelos nas grandes divas de Hollywood. Os vestidos de Vionnet conservam a aparência simples clássica, são vestidos que dialogam com o corpo feminino e que não existem sem ele. A coleção da primavera de 1939 foi suntuosa como nenhuma o tinha sido antes; foi elegante e bela, uma explosão de alegria. Também foi a última coleção de Vionnet que com o início da 2ª guerra fecha seu atelier. Morre em 1975.
Quem tiver a oportunidade, não pode deixar de desfrutar com seus próprios olhos estes tesouros.
De 18 de junho de 2009 e até 24 de janeiro de 2010
Les Arts Décoratifs – 107, rue de Rivoli 75001 Paris

Ana Claudia Lopes, Blogueira do Cajon De Sastre
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